é um projecto de apropriação de uma cidade inundada. e a construção de uma outra. é uma proposta de mapeamento e destruição da cidade. uma provocação. um desdobramento da cidade e a consequência da sua deslocação para um palco. é uma partitura. e um conjunto de heterotopias. é tudo aquilo que já foi feito mas não por eles. é sobre o abate de árvores.
«Prometemos ficar calados, só a abater árvores» é uma proposta do Teatro Aveirense, em parceria com as Escolas Secundárias Homem de Cristo e Mário Sacramento, coordenada por Ana Raquel Ribeiro e com a colaboração de Ricardo Marques, Marco Martins e Hélio Morais.

6.11.10

{proposta 11}




«Este sofre em si e os seus gritos ouvem-se como bater de ondas.»

{texto: Ruben A.,'Caranguejo', cap: V , Assírio&Alvim; imagem: Pedro Cabrita Reis, 'A room for a poet', 2000.}

{proposta 10}

Acções.
Interferências.
Resistências.


O processo.











{imagens: «prometemos ficar calados, só a abater árvores», sessão 5}

{proposta 9}




Não existem personagens aqui.

«Era um abutre que me bicava os pés. Tinha já rasgado as botas e as meias e agora bicava os próprios pés. Bicava sempre sem parar, esvoaçava depois inquieto várias vezes à minha volta e retomava o trabalho.»
«Ouve-se o tinir da louça, uma criança que chora, um balde de água despejado, os gritos agudos das mulheres. Depois, uma voz fala grosso. Não se percebe o que diz. (...) As pessoas perdem-se em desvãos, degraus, cotovelos, nas penumbras da casa confusa. Está-se completamente só no meio dos outros.»«Ninguém parecia conhecer-me, nem mesmo ver-me.»

«Cidades são janelas em brasa com cortinas/ Puras, e pracetas com chuva entre aspas/Cidades são aposentos fixos/ Quer na cabeça, entre brasas, quer/ No gosto, na audição/ Barulho de passos, profundidade,/ Devotamento misterioso/ Crianças dotadas de uma inteira falta de intenção/Abertas a ligeiras canções tenebrosas e,/ Sobre as graves canções, fechadas/ Como pedras frias». «A cada passo levanta-se, assustada, uma canção, uma briga, o bater da roupa molhada, ruído de tábuas, choro de bébés, ranger de baldes. Mas temos de nos perder sozinhos por aqui para os perseguir com a rede de borboletas quando eles, cambaleantes, se soltam para esvoaçar no silêncio.»

«Quando vejo alguma coisa esquecida por aí, abandonada, levo-a comigo. Estou-me a lembrar do caso dos eucaliptos. (...) Levei-os comigo com a intenção de os devolver ao seu lugar. Quando cheguei a casa, deixei-os no meu quarto por um momento. Foi só um momento. O tempo de ir à biblioteca para saber o que comiam (...) Voltei a correr para casa não fosse tornar-se perigoso. Quando cheguei já era tarde. Já tinham dado em crescer. (...) Agora tenho um monte de árvores, tenho um bosque.» «Perdermo-nos numa cidade, como nos perdemos numa floresta, é coisa que precisa de se aprender.»

«Só poderia escrever sobre aquele lugar a falar de coisas monstruosas, inesperadas, desarticuladas. Que, acontecendo, se pervertessem». «E então penso: o lugar é terrível!».


{Imagens: «prometemos ficar calados, só a abater árvores», sessões 4 e 5. Textos: 1. franz kafka, «O Abutre», «Contos», Relógio d'Água, 2005. 2. Herberto Hélder, «Escadas e Metafísica», «Passos em Volta», Assírio e Alvim, 2001. 3, 5 e 7. Walter Benjamin, João Barrento (trad.), «Atrasado», «Ruídos» e «Tiergarten», «Imagens de Pensamento», Assírio e Alvim, 2004. 4 e 8. Herberto Helder, Lugar.  6. Pablo Albo, «Eucaliptos», «Diogenes», Kalandraka, 2010. 8. Maria Gabriela Llansol, 'Livro de Horas I», Assírio e Alvim, 2009.}

mandamentos: caldeiros, sobre-cabeceiras, talhos e cabeceiras {1.3.}





Depois de todo o sal rido para o tabuleiro, tira-se. Para isso deixa-se o sal sobre o tabuleiro durante algumas horas até escorrer bem; enchem-se as canastras com pás (punhos) e levadas à cabeça pelos homens e pelas carregadeiras, até à eira, onde se faz o monte. O monte tem, em geral, uma forma cónica. Segue-se o apajar os montes, isto é, compor e bater a superfície dos montes com o pajão para que fique lisa e comprimida. Cobre-se depois os montes com junca, para proteger tanto quanto possível o sal contra a chuva.

Enquanto o monte não ultrapassa as 5 toneladas, denomina-se estrela, mancheia ou mão cheia; se toma a configuração de um prisma triangular rematado por 2 meios cones laterais, chama-se mula ou serra.

{video: «One flat Thing, reproduced», William Forsythe (cor.), 2007. texto adaptado: charles lepierre, «inquérito à indústria do sal», universidade técnica, 1932.}

mandamentos: caldeiros, sobre-cabeceiras, talhos e cabeceiras {1.2.}





A operação mais importante do preparo dos meios é a chamada cura. Curar é endurecer o solo da marinha. Em Aveiro faz-se um solo resistente, impermeável à água, no qual o sal possa ser apanhado sem vir sujo de lodo e com areias no fundo. Curiosamente, é com argila e areia que, em parte, se cura o fundo da marinha. O processo consiste em cobrir o fundo natural de uma camada fina da sal aderente; mas para que este sal não se pegue ao sal que se depositará estende-se uma delgada camada de argila e depois polvilha-se com areia fina.

Uma vez preparados os meios da marinha pode introduzir-se a água já concentrada e botar ou deitar a marinha a sal.


{imagens: «prometemos ficar calados, só a abater árvores», sessão 5. texto adaptado: charles lepierre, «inquérito à indústria do sal», universidade técnica, 1932.}

mandamentos: caldeiros, sobre-cabeceiras, talhos e cabeceiras {1.1.}



Os compartimentos que servem para evaporar a água do mar e fabricar o sal dividem-se naturalmente em dois grupos: o primeiro, menos cuidado, consta de um ou mais reservatórios, onde a água circula, passando de uns para os outros; daí a água penetra no segundo grupo de reservatórios, preparados com cuidado, vai pouco a pouco depositando a maior parte do sal que encerra. A água deve passar sempre de compartimentos maiores para compartimentos menores, em virtude da diminuição do volume, provocada pela evaporação. A altura da camada da água, nos taboleiros, deve ser a mais pequena possível mas suficiente para cobrir os fundos e para alimentar os diversos compartimentos.

comedorias. aqui efectua-se o armazenamento da água da salina {viveiro e algibés}.
viveiro. depósito de água salgada, com capacidade suficiente para alimentar a salina.
algibés. reservatórios rectangulares, com uma altura de água aproximada de 10 cm.

mandamento. ordem evaporadora da salina, em cujos reservatórios {caldeiros, sobre-cabeceiras, talhos, cabeceiras}, se deposita grande parte, não só das impurezas transportadas pela água, mas também sais de ferro, carbonato de cálcio e gesso.
machos. muretes rectangulares, situados de 6 em 6 meios, por onde se caminha.

marinha. ordem cristalizadora da salina, a marinha propriamente dita, composta pelos meios.
meios. compartimentos condensadores (meios de cima) e cristalizadores (meios de baixo) das marinhas nova e velha.




{texto adaptado: charles lepierre , «inquérito à indústria do sal», universidade técnica de lisboa, 1932. diamantino dias, «glossário: designações relacionadas com as marinhas de sal da ria de aveiro», 1996} 

25.10.10

{proposta 8}




«Raramente temos tempo de observar aquilo que devia ser perfeitamente evidente: que confiamos em vão a um outro tempo e a outro lugar o segredo do sonho.
(...)
Assim, a promessa que o sonho formula no próprio momento em que se dissipa é a de uma lucidez tão poderosa que nos entrega à distracção, de uma palavra tão completa que nos reenvia para a infância, de uma razão tão soberana que se compreende a mesma como incompreensível.»


{texto: Giorgio Agamben, trad: João Barrento, 'Ideia da Prosa', Cotovia p.57 e 59; imagem: Edgar Martins, 'The Accidental Theorist'}

{proposta 7}





«Maneira simplicíssima de destruir uma cidade.
Aguarda-se escondido no pasto que uma grande nuvem cumuliforme se posicione sobre a destestável cidade. Lança-se, então, a flecha petrificadora, a nuvem converte-se em mármore, e, o resto dispensa qualquer comentário.»

{texto: Julio Cortazar, trad: Alberto Simões, 'A volta ao dia em oitenta mundos', Cavalo de Ferro, p.16}

{proposta 6}



O sentido da audição encontra-se situado, sobretudo, no ouvido. O ouvido detecta e transporta vibrações sonoras até ao cérebro. A vibração sonora é transportada pelo canal auditivo (ouvido externo) para o tímpano, uma membrana fina esticada sobre a entrada do ouvido. No interior do ouvido existem três pequenos ossos (martelo, bigorna e estribo) que transportam as vibrações para outra pequena membrana chamada janela oval. Estes ossos são os mais pequenos do corpo humano.
Para que um som reflectido seja ouvido como eco, deve ocorrer, pelo menos, um décimo de segundo após o som original.

Os sons que penetram nos ouvidos são registados duas vezes pelo cérebro.


{imagem: sessão 2, estação de caminhos de ferro de Aveiro}